O caso dos dois irmãos franceses abandonados em Alcácer do Sal continua a chocar o país e a levantar sérias preocupações sobre o futuro emocional das crianças. Barthélémy e Zacharie foram deixados para trás pela mãe e pelo padrasto, numa situação que gerou uma enorme onda de indignação pública. Agora, uma especialista do Instituto de Apoio à Criança alerta para as consequências profundas que este episódio poderá deixar no desenvolvimento dos menores.
Em declarações à revista Sábado, a psicóloga Melanie Tavares classificou o abandono como um ato “cruel e traumático”, sublinhando que as crianças viveram momentos de extrema angústia e perderam, de forma repentina, todas as referências que lhes transmitiam segurança. A especialista explica que a ausência da figura materna, considerada uma das principais referências afetivas na vida dos menores, pode provocar sentimentos de desorientação, medo e uma quebra significativa da confiança nos adultos.
Segundo a psicóloga, os efeitos deste trauma poderão manifestar-se de várias formas nos próximos tempos. Entre os sinais mais frequentes estão dificuldades em dormir, pesadelos recorrentes, terrores noturnos, regressão em comportamentos já ultrapassados, como voltar a fazer xixi na cama, ou até uma necessidade acrescida de proximidade física e proteção. Melanie Tavares alerta ainda que, mesmo quando as crianças não conseguem verbalizar o sofrimento, o impacto emocional continua presente e pode influenciar o seu comportamento e desenvolvimento durante vários anos.
Perante este cenário, a especialista defende que a prioridade passa por devolver estabilidade à vida dos dois irmãos. Recuperar rotinas, regressar ao ambiente familiar e escolar, manter contacto com pessoas de confiança e receber muito afeto são medidas consideradas fundamentais para minimizar os danos emocionais. “Precisam de colo, presença e segurança”, reforça a psicóloga, destacando que o apoio às crianças e aos futuros cuidadores será essencial para ajudá-las a ultrapassar um dos momentos mais difíceis das suas vidas.