Internacional

Jovem que cometeu homicídio contra a mãe queria proteger irmã

O jovem de 15 anos que matou a mãe em Algés, e que ficou ontem sujeito a internamento em centro educativo por três meses, já tinha pedido para ser institucionalizado, afirmando que a mãe batia constantemente na irmã de quatro anos e ameaçava matá-la. “Não desistam da minha irmã”, terá pedido o adolescente à Polícia Judiciária (PJ) quando confessou o crime.

Gabriela Barbosa batia frequentemente na menina e há até áudios e vídeos gravados pelo menor e entregues à Comissão de Proteção de Menores a dar conta disso mesmo.

A mãe chegou mesmo a ameaçar a vida da filha mais nova, de quatro anos. “Vou atirar-me da janela com a miúda. Acaba tudo”, ouve-se num desses registos.

Contudo, de acordo com o Correio da Manhã, o tribunal não valorizou essas provas, entendendo que o jovem era manipulador, e recusou a institucionalização. Recusou também o pedido feito por outros familiares para que as crianças voltassem para o Brasil e ficassem a cargo da família paterna.

Há poucas semanas, a PSP esteve na casa depois de mais uma chamada do adolescente, mas nada foi feito.

Recorde-se que o pai das crianças encontra-se detido e acusado dos crimes de violência doméstica e violação agravada. “Encontra-se em prisão preventiva [na cadeia de Caxias] desde 15 de outubro de 2025 e o julgamento está marcado para o próximo dia 15 de setembro”, esclareceu o Tribunal de Lisboa Oeste ao Jornal de Notícias.

A advogada de José Irlano, Gisely Steagall, alega que foram as dificuldades financeiras e os problemas matrimoniais a contribuir para a deterioração do ambiente familiar mas, apesar disso, a detenção do patriarca não pôs fim aos problemas dentro de casa. “As brigas entre o filho e a mãe continuaram”, conta ao mesmo jornal.

Também esta advogada revela que recebeu do jovem de 15 anos vídeos nos quais se ouvia a filha do casal a “chorar muito”, alegadamente por estar a ser agredida pela mãe.

A partilha desses vídeos pelo adolescente pretendia, defende Gisely Steagall, alertar para o que estaria a acontecer na habitação da família e também seria um pedido de auxílio.

Jovem já tinha visto o pai a tentar assassinar a mãe

O adolescente de 15 anos suspeito de matar a própria mãe, Gabriela Barbosa, já tinha presenciado um episódio de violência do pai contra ela, segundo relata Gilmara Barbosa, irmã da vítima, ao portal Terra.

Segundo Gilmara, a irmã já tinha desabafado com a família sobre o perfl agressivo do sobrinho e até chamou a polícia durante uma discussão recente.

Recorde-se que Gabriela tinha-se mudado para Portugal há cerca de três anos com o então marido e os filhos em busca de uma vida melhor, mas a família conta que acabou por separar-se porque o companheiro não a ajudava financeiramente e era agressivo e possessivo.

“O marido não aceitou a separação e tentou matá-la, estrangulá-la. Só que, neste dia, ele ligou para a mãe dele e ela mandou ele se entregar. Aí a polícia foi lá e conseguiu reanimar a minha irmã”, revela Gilmara Barbosa. “E, agora, o filho dela faz isso com ela. Vinha há tempos pesquisando como fazer para matá-la.”

O caso aconteceu em outubro do ano passado e o adolescente e a irmã mais nova presenciaram a cena. “Ele [sobrinho] pegou as facas da casa e jogou fora para o pai não matar a mãe dele. Ele já sabia que o pai ia tentar isso”, contou a irmã de Gabriela, que acrescenta que o jovem já vinha a ameaçar matar a mãe há algum tempo.

Filhos eram vítimas de maus-tratos e família era acompanhada pela CPCJ

O jovem de 15 anos foi identificado na quinta-feira, em Algés, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa, após ter alertado a polícia de que teria discutido com a mãe na quarta-feira e “durante a noite efetuou um ‘mata-leão’ [asfixia no pescoço com o braço, por trás], provocando-lhe a morte”, informou à Lusa fonte oficial da Polícia de Segurança Pública (PSP).

Presente depois a primeiro interrogatório judicial, “o jovem exerceu o direito ao silêncio”, indicou o CSM, referindo que o tribunal considerou “fortemente indiciados os factos que lhe são imputados e que, caso tivessem sido praticados por pessoa com mais de 16 anos, seriam suscetíveis de integrar um crime de homicídio qualificado”.

“O tribunal entendeu ainda existir perigo de prática de novos factos de gravidade semelhante”, adiantou o CSM.

A decisão foi tomada pelo Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste, no âmbito do processo tutelar educativo.

Anteriormente, a PJ adiantou que, tendo em conta a idade de 15 anos, que o torna inimputável criminalmente, o jovem pernoitou na noite de quinta-feira num centro educativo situado na Área Metropolitana de Lisboa e seria hoje presente às autoridades judiciárias junto do Tribunal de Família e Menores de Cascais, “para eventual aplicação de medida tutelar educativa”.

Segundo a PJ, o jovem de 15 anos e a sua irmã de 4 anos seriam vítimas de maus-tratos por parte da progenitora.

“O contexto que levou à ocorrência do crime estará relacionado com eventuais maus-tratos físicos e psicológicos mantidos pela vítima em relação aos dois filhos”, indicou a Judiciária, em comunicado.

Na quinta-feira, quando o jovem alertou as autoridades, meios policiais e de socorro que se deslocaram para o local confirmaram que a vítima, de 33 anos e nacionalidade estrangeira, estava morta desde quarta-feira, de acordo com a PSP.

Na habitação encontrava-se também a irmã do suspeito de homicídio qualificado na forma consumada, e filha da vítima, de 4 anos.

A família era acompanhada pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Oeiras desde 2024, dada a sua “situação de fragilidade”, passando a acompanhamento judicial em 2025 por incumprimento das medidas.

Numa resposta enviada à Lusa, o presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Oeiras, Rui Esteves, revelou que foram instaurados, em 22 de maio de 2024, os Processos de Promoção e Proteção (PPP) a favor do jovem de 15 anos e da sua irmã com 4 anos.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo